Vivemos em uma época marcada por muitas divisões. Temos mais recursos para conversar do que nunca, mas parece que estamos cada vez menos dispostos a ouvir. As redes sociais aproximam pessoas que estão longe, mas ao mesmo tempo levantam muros entre pessoas que moram na mesma casa ou trabalham juntas, e até entre irmãos da mesma igreja.
A sociedade está dividida por opiniões políticas, diferenças religiosas e questões sociais, econômicas e culturais. Nesse cenário, a Igreja de Jesus tem uma grande responsabilidade: não apenas falar sobre unidade, mas vivê-la.
Pouco antes de enfrentar a cruz, Jesus fez uma oração que deveria permanecer gravada no coração de todos os seus seguidores. Ele orou ao Pai: “para que todos sejam um” (João 17.21).
Jesus não estava pedindo que todos fossem iguais, pensassem exatamente da mesma maneira ou tivessem a mesma personalidade. Seus próprios discípulos eram diferentes. Havia entre eles temperamentos, histórias e opiniões distintas. O que os unia era algo maior: Cristo.
Uma casinha de cachorro
Certa vez ouvi uma história triste de um velho amigo que também era pastor. Ele me contou sobre uma igreja que acabou se dividindo por causa de uma casinha de cachorro.
A história parece até pequena demais para provocar uma divisão. Um cachorro ajudava a cuidar do terreno da igreja, e alguém decidiu construir uma casinha para ele. Depois de pronta, surgiu a questão: quem deveria pagar por aquela construção?
Alguns entenderam que a igreja deveria assumir a despesa, já que o cachorro guardava o terreno da própria igreja. Outros não concordaram. A discussão foi crescendo, as posições foram ficando cada vez mais rígidas e aquilo que começou com uma simples casinha acabou se transformando em um problema muito maior.
No final houve uma divisão. Pessoas que durante anos sentaram-se juntas, cantaram juntas, oraram juntas e trabalharam juntas deixaram de caminhar lado a lado. Surgiu outra igreja.
Quando ouvi essa história, fiquei pensando: não foi a casinha de cachorro que dividiu aquela igreja. Ela apenas revelou que havia algo muito mais profundo acontecendo no coração das pessoas.
Talvez essa seja uma das maiores tragédias da vida cristã: quando coisas pequenas se tornam maiores do que Cristo.
Não foi isso que Jesus desejou para sua Igreja. Ele não orou para que seus discípulos vencessem todas as discussões. Ele orou para que fossem um.
Uma igreja pode ter bons cultos, bons projetos, excelentes pregadores e uma estrutura bonita, mas se não consegue conviver, perdoar e caminhar em amor, sua mensagem perde força.
Paulo compreendeu isso quando escreveu aos cristãos: “Suportando-vos uns aos outros em amor, procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz”
Efésios 4.2-3.
Suportar uns aos outros não significa concordar com tudo. Significa reconhecer que o outro também é alguém por quem Cristo morreu. Significa aprender a conversar antes de julgar, perdoar antes de abandonar, servir antes de exigir e compreender antes de condenar.
A sociedade precisa ver este testemunho
Vivemos em um ambiente em que as pessoas rapidamente se cancelam, rompem relacionamentos e transformam diferenças em motivos para hostilidade. Por isso, quando uma comunidade formada por pessoas diferentes consegue permanecer unida por causa de Cristo, ela se torna uma mensagem viva.
Uma palavra de mansidão em meio à agressividade chama atenção. Uma igreja que acolhe, reparte e cuida demonstra que o Evangelho não é apenas um discurso. Jesus disse:
“Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”
(João 13.35). Observe que ele não disse que o mundo reconheceria seus discípulos pela quantidade de pessoas nos templos, pela qualidade da música ou pela eloquência das pregações. O sinal seria o amor.
A unidade também precisa aparecer no serviço. Uma igreja unida não pergunta somente: “O que podemos receber?”, mas: “O que podemos fazer juntos para abençoar nossa cidade?” Ela olha para as crianças, os idosos, as famílias, as pessoas solitárias e aqueles que enfrentam dificuldades, entendendo que seus muros não podem limitar sua missão.
Cristo continua sendo a verdadeira luz. A Igreja não produz essa luz; ela a reflete. E, quanto mais próxima estiver de Cristo, mais claramente sua vida revelará essa luz à sociedade.
Talvez precisemos olhar para nossas próprias “casinhas de cachorro”. Que coisas pequenas estão ocupando um espaço grande demais em nossos relacionamentos? Que opiniões, mágoas, disputas ou interesses pessoais estão ameaçando a unidade que Cristo pediu ao Pai?
A sociedade já está cheia de divisões. O que ela precisa encontrar na Igreja é uma comunidade diferente: pessoas que também têm diferenças, mas escolheram permanecer juntas por causa de Jesus.
Que nossas palavras, nossos relacionamentos e nossas atitudes possam anunciar aquilo que pregamos. Que as pessoas possam olhar para a Igreja e enxergar não uma comunidade perfeita, mas uma família que aprendeu a perdoar, servir, suportar e amar.
Porque quando a Igreja vive em unidade, Cristo é visto.
E quando Cristo é visto, a luz começa a vencer a escuridão.
Israel C. Cordeiro,
Pastor Auxiliar em Diadema- SP.
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